2009-02-10

E pouco mais...


"Pé bem firme, leve dança. Que o saber seja de adulto, mas o brincar de criança."

Agostinho da Silva


2007-06-08

Hoje vou...


Imperturbável ou talvez nem por isso, deleito-me embalado pela imagem que com meus olhos nunca vi, a silhueta do teu corpo desprovido das vestes que na pressa do desejo te arranquei...
Quase entorpecido, quase embriagado pelo aroma emanado pelos teus movimentos, pelos teus gestos quase obscenos, seguramente sensuais, deixo-me levar pelo torpor quase imperial, imperativo dos mais irracionais instintos, que em mim insistem perpetuar, dominando-me...
Sigo ou paro? Vou ou fico?

Em análogas salomónicas decisões, julguei sempre melhor optar por suster a respiração, inevitavelmente ofegante, não raras vezes sufocando ímpetos tão inenarráveis como viciantes... mas hoje escolho arriscar, percorrer a pista da tua lágrima, perder-me no movimento sinuoso dos teus beijos, fundir-me no calor do teu corpo... hoje vou, embarco no comboio dos loucos rumo à terra dos sonhos, país dos intratáveis, incuráveis delirantes, donos de tudo e de nada... conto nunca mais voltar...

2007-05-04

Gente


Perguntei-me aonde pára
A gente que fala meu pai
Que olha de frente, que encara
A gente que passa e repara
No gato que brinca, na chuva que cai

Gente que viva é urgente
De quem não tem que seja a voz
Inquieta mas coerente
Gente que lembre da gente
Mesmo que não precise de nós

2007-05-02

Fazer de Conta


Nunca quis fazer de conta
contei contigo para ajudar
Quem se à realidade desconta
e seus quês não interroga e confronta
poucos passos tem para dar

É que uma vez desencontrado
ter que andar contas do rio a largar
difícil não é que as movam de lado
e na volta de avesso virem o fado
de quem certezas não tem para dar

Quem não assume seus males, seus medos
grandeza atribui ao chão que o há de colher
e vê-se-lhe a vida escorrer entre os dedos
pois nem o mais rebuscado dos enredos
se assemelha ao dilema que lhe cabe resolver

Se bem que sempre encontrei no problema
altura ideal para encontrar solução
Pois flui em meu corpo elaborado floema
que alimenta o meu ego e me inspira o poema
me resolve o enigma, me responde à questão

Não almejo mais que um abraço
Nunca quis menos que um só
E só na paz do teu regaço
Fui capaz de quebrar o firme laço
que me prendia ao passado com dolo e sem dó

2007-05-01

Como um rio


Na sua margem o mesmo aroma
vontade de andar, de correr
O rumo que sempre toma
o passo apressado não pode perder

Na nascente, a esperança de chegar
Na foz, um vazio, um fim, uma dor
ou a redobrada vontade de começar
nova vida, temperada de sal e sabor

O horizonte tão largo, tão incerto
confuso, revolto, desafiante
Outrora a terra ao lado, tão perto
hoje uma ténue lembrança, turva, hesitante

O que foi não volta, só fica a memória
e a certeza do passado, não passar disso
Agora a corrente é uma escolha, nova história
um livro aberto, à espera de ti, do teu feitiço

A saudade, essa é um luto
O bagaço da uva pisada, calcada
Mas é na força do olho enxuto
Que reunimos força para a diária caminhada

2007-04-27

Noite


Diluído o sol no alto mar
fundem-se as cores da jornada finda
em negro manto escuro altar
propicio tom ao penoso cantar
do vento sul, da chuva vinda

No discorrer da reza se contam
as contas frias de um rosário
De véu e vestido se aprontam
em lendas e crenças se montam
desarrumam a fé do armário

Dona, senhora se exalta
e é tão alta a berraria
que com susto nos assalta
pois medo é coisa que não falta
e quem o rejeita, o contraria

É assim, decidido e indiferente
que à faina se lança mais um
a volta sempre intermitente
e a colheita insuficiente
prorroga infinito jejum

Noite que é noite não geme
ao chegar de um outro dia
Gente que a vive não teme
encara-a, mão firme no leme
e de peito aberto, novo sol anuncia

Pouco Importa


Cai a noite e a folha no chão
e eu
Pouco importa
Na cama lavada, o colchão
suporta o peso da carne morta
vazia

Fecho um olho, o outro não
Esqueço tudo

Na alma não guardo
o que do corpo se solta
Nas voltas que a vida dá
de mim pouco se verá
A menos que dispenses escolta
E me dês por fim alvará
aí sim
Ergo o mundo à tua volta

Senão... fecho o outro
E esquecem-me todos
Pouco importa

O medo depois é que me chamem impossível
Dono de tudo e de nada
Ou apenas degrau de uma escada
Chapacho pisado á entrada
Que te importa?

Já eu não digo o mesmo...

2007-04-26

26.04.007







ao amigo Luís Pinto dos Santos,


À tua porta vou passar
tenho esperança de te ver
e uma história para contar
levo um abraço para te dar
e um poema para te ler

Trago comigo o respeito
por quem honrou palavra luta
e trago a força cravada no peito
que imita a que a teu jeito
se viu sempre de cara enxuta

Bem alto lugar te merece
de onde folheias atento o destino
de quem teu sofrimento conhece
e por tal nunca se esquece
que Coragem foi sempre o teu hino


Para ti a revolução foi a 26, o dia da tua liberdade... eterna!

Até já Luís, até já!

2007-04-03

A lei e o povo


No tempo em que o povo era lei
a lei era o povo
e o povo era rei
Um rei que era povo
de um reino sem lei

A regra escolhida, por todos pensada
por tantos usada,
por todos querida
era porta aberta e se atravessada
só tinha entrada, mas nunca saída

Fazia-se tanta, a pouca lentilha
com arte e uma pedra, matava-se a fome
E quem nem sabia o que era a cartilha
lia sem enganos no céu o seu nome
por ter sempre tratado a verdade por filha

Ora, nova lei vigora
com povo sem reino, sem rei nem roque
a reboque de tempos de outrora
mas que corre apressado, a passo de trote
sem olhar à gente, mas somente a hora

Mudaram os tempos, mas poucas vontades
quis o povo que fosse assim
Ainda se zangam comadres
mas já são poucas as verdades
que se ouvem a tempo de achar outro fim

2007-03-30

Mil Palavras


Em mil palavras Te vi
e em outras tantas Te aprendi
não me lembro sequer
se as inventei, se as li
por isso não mais repeti

A frase
em mil pedaços parti
E em mil letras, mil cartas revi
as vezes, que às vezes me vi
Debruçado em tanta palavra

“De uma delas faço mil!”
gritei
e o que faço de mim
ao pé de Ti não é nada
Do que escrevo pouco sei
e muito tempo que ao que escrevo dediquei
ao que sinto só serve de entrada...

2007-03-08

Publico-te


Publico-te
Escrevo-te em todo lado
e em folhas não vou poupar
nem a artigo te resumo
desenho-te em anéis de fumo
e tu, desenhas-te num lençol
ou numa valsa em ré bemol

Sistematicamente incorrecto
crio a lei, lanço decreto
Repetidamente demasiado exigente
volto a tentar descrever-te
e como é pra toda gente
publico-te
Faço de ti noticia
e tu, fazes de mim o leitor

Escrevo-te de noite
No escuro, claro está
basta-me a luz dos sentidos
e os teus pertences caídos
espalhados em meu chão
ou teu corpo ao alcance da mão

Nas tuas asas me elevas, me agarro
E entre um e outro cigarro
Uma pena te arranco ao descer
Para que te possa escrever
descrever
E... publico-te

2007-02-19

Ferida Aberta


Beijavas-me a testa
quando acordei de repente
Questionei “que vida esta?”
que tudo o que faço contesta
ao tanto que luto indiferente

Tentei mais de quantas vezes
sentar contigo, falar, perceber
mas percebi que minhas preces
não passam de esmolas, benesses
ao lado do orgulho que teimas manter

Teus ideais rejeito, discordo
de tantos nem lembro, os demais reprimi
Mas de noite confesso ainda acordo
e as palavras que mais me recordo
são as que de ti nunca ouvi

A letra troquei mas nunca o toque
retoco pintura da parede que ergui
Ergo a vela, queres vir a reboque?
Hasteio bandeira e se há quem se choque
não há quem não queira ao menos sonhar o que vi

Resignadamente inquieto me vejo
me afirmo tão firme, a tanto resisti
Sou planta rasteira mas nunca rastejo
e se perene minha alegria desejo
caducidade da tua, jamais a pedi

Desse tempo que passa se diz
Que tudo cura, assim seja feito
Lancei ao rio o sangue e o anis
outrora do peixe o chamariz
hoje apenas engodo ao teu respeito

2007-02-16

Eu e... eu!


Esperei por mim no fundo da avenida
No fundo, cheguei a achar que nem vinha
Quis até apostar, mas dinheiro não tinha
Lamentei o atraso e a hora perdida
Mas conheço-me bem, sei que a culpa é só minha

Ao chegar desculpei-me no mesmo instante
E embora o pensasse, não me quis criticar
Inventei uma história e deixei-me enganar
Mesmo desacreditado não quis ser distante
E sorri! - “Mais vale tarde, que nunca chegar!”

Logo enveredei pela conversa do costume
Irritei-me, estive mesmo para ir embora
Só não fui por ser eu, mas avisei que era hora
Já não há paciência para tanto queixume
De mim não levo nada! Para mudar que seja agora

Assim não dá! Não aguento mais
Jurei a mim mesmo a conduta alterar
E já agora a forma de estar e pensar
Que foram sempre atitudes iguais
As que me impediram de avançar

Alá-Riba, puxo por mim
É desta que avanço no mar
Puxo a corda que quero desancorar
Inquieto-me e busco por fim
Um caminho para navegar

2007-01-30

Espreita-me


Definho assistindo à atitude que ao mundo diriges
Pouco te interessa já o que penso
Para ti não vivo, sobrevivo... tudo corriges
Certo ou errado, que importa? Já nada defendo

Pago e não peço recibo ou talão
Empresto-me a quem me queira ouvir
Prometo não imitar o teu silencio... eu não!
Já passou! Agora só pesa o que está para vir

Guardas dúvidas? Tenho-as de sobra
Respostas tenho para quem as quer ver
Agastado, antes iluminado pela tua presença, pela tua obra
Fecha a porta, tudo bem, mas a cortina não queiras correr

Vê! Espreita... Espreita-me
Farei o que outrora contigo aprendi
Quando marcar o golo, aplaude-me
Sabes que o dedicarei sempre a ti!

2007-01-22

Escrevo, não escrevo


Não escrevo para sentir, pois não devo
Sinto para ter o que escrever
Leio o que digo mas só para aprender
A saber sentir aquilo que escrevo

Se muito penso pouco me entendo
Se não me percebo, penso demais
Quanto mais quero menos me lembro
E vou de Janeiro a Dezembro
Sem escrever duas frases iguais

Pouco me importa se escrevo a preceito
Mas se não escrevo tudo me interessa
Se faltam palavras, não penso na pressa
Não suporto nem quero escrever contrafeito

Se muito me peço a pouco me obrigo
Que pouco a pouco dá-me mais gozo
Não brinco com letras, mas elas comigo
Leio-me por dentro, mas sem olhar meu umbigo
Que olhar para mim mesmo deixa-me nervoso

Não quero ser muito, quero-me inteiro
Difícil de entender, fácil de definir
De alvo em movimento e tiro certeiro
A tempo do tempo que está para vir

2007-01-14

Vida... sem vida







Vejo-te aqui e ali cada dia
De olhar desatento, provocas quem passa
Finges não ver quem há muito te via
Na vida vazia, imunda, devassa

Do passo que usas conheço a razão
Para a dor que carregas solução desconheço
Nas costas a cruz e o terço na mão
Se a conduta reprovo, a culpa não te meço

Por todos falada, por poucos querida
Quem te o corpo conhece te quer esquecer
Diz o mundo e a gente que andas na vida
E eu só te vejo no mundo morrer

2007-01-02

Chuva que caí


A chuva que caí já não lava
De mim tão pesada vergonha
Que em minha pele cada dia se encrava
E do bolo me sai sempre a fava
Não fosse esta vida injustiça tamanha

No meio da rua ou no fim desta estrada
Caminho sozinho, sem fado nem norte
Perdi o tempo e fio à meada
Bolso vazio ou cheio de nada
Lanço a carta mais baixa e dados à sorte

Quem não rega suas flores
Só colherá o pó da estrada
Mente quem diz não sentir suas dores
E mata quem morre de amores
Chora quem vê sua jura ceifada

Derramado o leite, não há quem o beba
E quem o deseje não falta no mundo
Falta-me força, não falta quem deva
Deve-me o tempo segundos que leva
Quem muito alto voa, espera-lhe o fundo

2006-12-27

História




Relendo a história que Deus me ofertou
Páginas que viro sem conta dar
Sinto-me um sonho que alguém sonhou
Reflexo distorcido da imagem que sou
Folha a que o vento um rumo quis dar

Sou menos que um minuto contado
Na pressa da missa rezada
Assistida de corpo presente, ensonado
De olho aberto, o outro fechado
Perdido em memórias de pouco e de nada

Não tenho ideais e os demais pensamentos
São só a miséria de tão ignóbil viver
Ignorei a palavra e os ensinamentos
Deixei-me levar por demónios, tormentos
E entreguei cada dia a meu lento sofrer

2006-12-12

Vi o mar nos olhos de quem nunca o viu


Vi o mar nos olhos de quem nunca o viu
E estrelas no céu encoberto
Conheci o que um cego só sentiu
Senti o mesmo que a mãe que o pariu
O inferno tomei-o por certo

Vi cair tantas folhas no chão
E ao vento que as leva, o rumo perdi
Tive o mundo na palma da mão
Mas de noite cai do colchão
E não mais ao seu cimo volvi

Do alto da minha tão baixa janela
Da casa rasteira onde sempre vivi
Acendi em Teu nome, de noite uma vela
Que iluminou ponta a ponta a viela
Onde às ordens da Tua palavra cresci

2006-11-15

Verdade Inventada




Os tempos idos, levados
Na voz embargada, triste, forçada
Passos cruzados, lentos, marcados
Tudo conta quase nada
Mas eu insisto e vou na estrada

Perdi o tempo e a hora marcada
Mas lembro de leve o discurso
Tudo era pouco ou nada
Mas eu insisto e ando na estrada
Tentando marcar meu percurso

O brilho esbatido, ofuscado
Na jóia gasta, perdida, roubada
Largada ao destino do vento gelado
Vale agora pouco ou nada
Mas eu persisto e estou nesta estrada

O que a meus olhos era regra sem falta
Palavra com jura, lenda encantada
À mesa jogada a carta mais alta
De nada valia, verdade inventada
Mas nunca desisto... e sigo na estrada

2006-11-08

Vento que fala


Não quero eu ouvir as novas
Que o vento norte me trás
São modas tristes, são trovas
Disfarçam truques e provas
E testa-las a mim não me apraz

Não trouxe espada nem escudo
Fortuna não tenho um tostão
Solto o grito e o gesto mudo
Nada tenho e queria tudo
E tudo o que agarro é em vão

O mais que sinto é um nada
Ao lado da pressa incontida
Simples ardil da mente engilhada
Que à falta de rumo é à sorte atirada
E me embarca esta noite, sem volta só ida

Ezequivel é o plano
Que oprime a verdade e a cala
Começa a luta e cai o pano
Que vestia a desgraça e o engano
De traje fino de festa e de gala

Não quero eu ouvir as notas
Que o vento a miúde me toca
Hino que exalta as difíceis derrotas
Que entrelaça caminhos e rotas
E o meu horizonte desfoca

Não me quero eu afundar
Na escura gruta do desentendimento
Mas antes agir e agitar
Que a preguiça de só estar, esperar
É a causa do meu sofrimento

2006-11-02

Saudade




Quis desenhar, escrever sexta-feira
Que antes julguei cedo demais
E passei semana inteira
Perdido, soturno, sem eira nem beira
Tentando ocupar-me de coisas banais

Travou-me a vergonha e o mais que me impede
De rir ou sorrir é o tanto que tenho
Do pouco que exijo, o corpo me pede
A mente resiste e alma não cede
Vontade não falta, talvez o empenho

Fecho a porta, apago a luz
Mas nada me apaga a memória
Se nem o que escrevo, o que sinto seduz
Saber que em meu peito carrego esta cruz
É fardo pesado, para tão curta história

Ruga a ruga se tatua
Em minha pele tamanha saudade
De palavra despida, dita tão crua
De um beijo roubado na rua
Ou da certeza de uma amizade

2006-08-28

Quem es tu afinal?



Quem és tu e esse sorriso?
Que faz de mim submisso,
Não me deixa respirar...

Quem és e esse sorriso?
Que me leva ao paraíso
E me deixa perdido... a sonhar!

Quem és tu e esse sorriso?
Que me chega sem aviso
E foge de mim a voar

Quem és tu? E esse sorriso?
Se é sonho é o que preciso
E por isso não quero acordar!

2006-07-30





Minh'alma adormece em teus braços
Frios, mas quentes de amor,
Fortes, duros como aço,
Fracos cansados de dor

É revolta que sinto agora
É vontade de começar
Pego em ti que já é hora
De juntos podermos amar

Bebemos de um trago o passado
E ignoramos toda a razão
Braço dado, lado a lado
Abrimos portas à Ilusão

2006-07-07

Caçadas (Parte I)


Os anjos irados murmuram ao meu ouvido caçadas requintadas. No êxtase da noite deleito-me ao som do sussurro de suas vozes. Quem ousa duvidar dos anjos? Eu que os ouço não o faço, talvez por saber que dizem sempre a verdade, que mentira nunca vinga em suas histórias. Ensinou-mo a vida, ou talvez a minha avó... já não me lembro! Lembro sim de escutar atento, quase aterrorizado, os pormenores de suas caçadas, jornadas de sangue, de choro e de luto, de vidas esvaziadas em fracções de segundos, sem aviso, sem hora marcada. Os anjos não são brancos, melhor, não são só brancos. Nas penas de suas asas seca o vermelho sangue, fruto das vidas ceifadas a frio no calor de suas casas, em seus braços brilha a fuligem prata de correntes quebradas à força, a mesma força que os chama e os cora de vivo rosa, quais faces alvas e limpas, contadas na pressa da missa rezada, que a tantas vezes assisti. A malícia, aprendi a nunca associar a tais divindades. Fossem quais fossem seus actos, de obra divina são fruto, guiados pela não menos divina mão, fonte de divina justiça, que a todos toca cumprir. Ao comum mortal, de nada importa pensar, argumentar ou discutir, mas aceitar e seguir, que cumprir e dar graças, são imperativos indispensáveis à absolvição, que é por seu turno, elemento essencial e primário à admissão divina, claro está. Mesmo apelando ao meu mais refinado poder de síntese, será de todo impossível ignorar episódios relatados, ricos em pormenores requintados, apartes sórdidos e por isso absolutamente essenciais...Não quebro nenhum testemunho, nenhuma verdade instituída, gravada na sagrada obra, se disser que os anjos falam, não os ouvisse eu à noite, toda a noite... Às vezes culpo-me de os ter chamado tantas vezes, tantas, em tantas orações, em tantas frases feitas, batidas, usadas...
A ira que molda suas palavras, que envolve os seus relatos, não é aos olhos que quem com eles privou aceitável, mas a realidade que os envolve é bem diferente dos perfis meramente figurativas descritos pelos sagrados evangelistas, de não menos figurativas personalidades. O tom nervoso e incerto das suas vozes, choca de frente com a áurea calma e passiva que sempre se associa ao seu carácter. De gestos viciados, repetidos à medida da insegurança que os persegue e pauta a sua conturbada, confusa mas principalmente enigmática existência. Não é de todo fácil aceitar, a associação íntima do vocábulo - ira, à imagem instituída de um anjo. Desconexa e despropositada, chega a ser intolerável a sua existência, no léxico requintado que se pede a tão angelical personagem. A realidade é bem diversa. Um, contou-me uma noite em que saíram á caçada. Não, não fui quem se lembrou de utilizar tal termo, caçada é palavra corrente e recorrente do dia-a-dia, corrijo, do noite-a-noite de um anjo. Nestes casos, palavra e acto fundem-se, confundem-se e pouco importa o grau do termo implicado, quando a acção o transmite, literal e irrefutavelmente. Alguns seriam implicados pela primeira vez e nada sabiam sobre a penosa empreitada. Os passos arrastados e lentos, prenúncio do inevitável desfecho, quase não se ouviam, mas ecoavam na mente assustada dos mais novos. Em breve tudo não passará de um ritual, banal e diário, mas no entanto nunca diurno. Engana-se, como se enganavam os recém recrutados (entenda-se, nomeados, indicados, escolhidos, predestinados), quem pensa que a morte não escolhe hora, nem dia. A morte chega de noite e só de noite, ao som quase surdo, mas ensurdecedor aos ouvidos de quem a recebe e de quem pela primeira vez a retira. Diz-me quem a muito assistiu, que ninguém, bem, quase ninguém engana a morte, pois se o fizer vira anjo e não sobra por isso para o contar, a menos que como eu, se prive com eles...
Escutei-lhes conversas em tom obviamente viciado e por isso facilmente adjectivado como animado, regozijando com suas caçadas, enfatizando metodologias, transparecendo a sensação de dever cumprido...
" Trouxeste-a?"
"Custou-me... mas trouxe-a, claro!" - retorquiu.
Não o visse ele banhado em sangue, acabado de esventrar mais um peito, de ceifar mais uma, uma alma claro está, que é das tarefas quotidianas, a mais frequente entre os anjos.
“Deu-te luta foi? Cheio de vida o velhote…”
“Tinha o peito dela cheio…”
“Dela?”
“De vida, então… foi o cabo dos trabalhos até que lhe a alma arrancasse. E tu?”
“Sabes bem que tive menos trabalho, se bem que em quantidade…”
“Andas às pequenas…”
“Da lista nem uma se me escapou!”
Carregava almas tão jovens e por isso tão frágeis, inocentes, desprovidas por isso de combatividade ou predisposição consciente para lutar, para fintar quem a foice da morte lhes destina…
Aos olhos de quem em seu dia-a-dia comum tarefa desempenha, dificilmente encontra julgamento acertado para a conduta dos anjos. A cruel e sinuosa estrada onde caminham, dificilmente se esconde por detrás dos rostos tristemente habituados com que os vejo, as vozes trémulas com que os ouço, será por isso fácil perceber que quem os dotou de faces alvas e puras, serenas e contemplativas quando se prestou a esculpi-las e pinta-las, nunca de verdade os ouvi ou ouviu. Talvez fruto de uma imaginação herdada vezes sem conta, em diversas gerações de seus antepassados, testemunhas de pouco ou nada, mas ainda assim reconhecidos não raras vezes como sábios empíricos, sem no entanto critério palpável, quem se dedicou a retratar tais seres celestiais, achou por bem não divergir, divagar na ideia instituída de que estes meros pretensos contempladores passivos e expectantes das artes divinas, outras vezes relatados como carpideiros funerários de distintas individualidades e personalidades históricas, contribuindo assim para o delírio generalizado, fortificando a já de si solidificada, alicerçada ideia de ausência total de pecado em seres por todos jamais vistos, por mim até, que o contrário afirmo de forma peremptória… quem sabe?

2005-07-24

Quando chega o meu futuro?



Quando chega o meu futuro?
Paro e pergunto, ó Deus meu!
Quando é que eu fico maduro
Canso-me e sei como é duro,
Saber o quanto se perdeu!

Paro e entrego-me a Ti,
Só tu sabes quem eu sou
Acredito e nunca vi
Mas do caminho me perdi
e a Fé, no ar se esfumou

"Não guardes pra ti, isso dói-te"
Minha avó sempre a avisar
Parei tarde e já de noite,
Sinto da vida o açoite
Qua a angústia em mim veio apressar

Que a primeira a partir é a jarra,
À que guardo maior cuidado
Se já nem Teu braço me amarra,
Esqueço que o medo e a garra
Deambulam lado a lado

Hoje rasgo Teu nome do peito
Amachuco e atiro-o à rua
Só hoje, que amanhã o respeito
E a vergonha de meu feito
Vergam-se à imagem Tua...