2007-04-27

Noite


Diluído o sol no alto mar
fundem-se as cores da jornada finda
em negro manto escuro altar
propicio tom ao penoso cantar
do vento sul, da chuva vinda

No discorrer da reza se contam
as contas frias de um rosário
De véu e vestido se aprontam
em lendas e crenças se montam
desarrumam a fé do armário

Dona, senhora se exalta
e é tão alta a berraria
que com susto nos assalta
pois medo é coisa que não falta
e quem o rejeita, o contraria

É assim, decidido e indiferente
que à faina se lança mais um
a volta sempre intermitente
e a colheita insuficiente
prorroga infinito jejum

Noite que é noite não geme
ao chegar de um outro dia
Gente que a vive não teme
encara-a, mão firme no leme
e de peito aberto, novo sol anuncia

Pouco Importa


Cai a noite e a folha no chão
e eu
Pouco importa
Na cama lavada, o colchão
suporta o peso da carne morta
vazia

Fecho um olho, o outro não
Esqueço tudo

Na alma não guardo
o que do corpo se solta
Nas voltas que a vida dá
de mim pouco se verá
A menos que dispenses escolta
E me dês por fim alvará
aí sim
Ergo o mundo à tua volta

Senão... fecho o outro
E esquecem-me todos
Pouco importa

O medo depois é que me chamem impossível
Dono de tudo e de nada
Ou apenas degrau de uma escada
Chapacho pisado á entrada
Que te importa?

Já eu não digo o mesmo...

2007-04-26

26.04.007







ao amigo Luís Pinto dos Santos,


À tua porta vou passar
tenho esperança de te ver
e uma história para contar
levo um abraço para te dar
e um poema para te ler

Trago comigo o respeito
por quem honrou palavra luta
e trago a força cravada no peito
que imita a que a teu jeito
se viu sempre de cara enxuta

Bem alto lugar te merece
de onde folheias atento o destino
de quem teu sofrimento conhece
e por tal nunca se esquece
que Coragem foi sempre o teu hino


Para ti a revolução foi a 26, o dia da tua liberdade... eterna!

Até já Luís, até já!

2007-04-03

A lei e o povo


No tempo em que o povo era lei
a lei era o povo
e o povo era rei
Um rei que era povo
de um reino sem lei

A regra escolhida, por todos pensada
por tantos usada,
por todos querida
era porta aberta e se atravessada
só tinha entrada, mas nunca saída

Fazia-se tanta, a pouca lentilha
com arte e uma pedra, matava-se a fome
E quem nem sabia o que era a cartilha
lia sem enganos no céu o seu nome
por ter sempre tratado a verdade por filha

Ora, nova lei vigora
com povo sem reino, sem rei nem roque
a reboque de tempos de outrora
mas que corre apressado, a passo de trote
sem olhar à gente, mas somente a hora

Mudaram os tempos, mas poucas vontades
quis o povo que fosse assim
Ainda se zangam comadres
mas já são poucas as verdades
que se ouvem a tempo de achar outro fim