2006-11-15

Verdade Inventada




Os tempos idos, levados
Na voz embargada, triste, forçada
Passos cruzados, lentos, marcados
Tudo conta quase nada
Mas eu insisto e vou na estrada

Perdi o tempo e a hora marcada
Mas lembro de leve o discurso
Tudo era pouco ou nada
Mas eu insisto e ando na estrada
Tentando marcar meu percurso

O brilho esbatido, ofuscado
Na jóia gasta, perdida, roubada
Largada ao destino do vento gelado
Vale agora pouco ou nada
Mas eu persisto e estou nesta estrada

O que a meus olhos era regra sem falta
Palavra com jura, lenda encantada
À mesa jogada a carta mais alta
De nada valia, verdade inventada
Mas nunca desisto... e sigo na estrada

2006-11-08

Vento que fala


Não quero eu ouvir as novas
Que o vento norte me trás
São modas tristes, são trovas
Disfarçam truques e provas
E testa-las a mim não me apraz

Não trouxe espada nem escudo
Fortuna não tenho um tostão
Solto o grito e o gesto mudo
Nada tenho e queria tudo
E tudo o que agarro é em vão

O mais que sinto é um nada
Ao lado da pressa incontida
Simples ardil da mente engilhada
Que à falta de rumo é à sorte atirada
E me embarca esta noite, sem volta só ida

Ezequivel é o plano
Que oprime a verdade e a cala
Começa a luta e cai o pano
Que vestia a desgraça e o engano
De traje fino de festa e de gala

Não quero eu ouvir as notas
Que o vento a miúde me toca
Hino que exalta as difíceis derrotas
Que entrelaça caminhos e rotas
E o meu horizonte desfoca

Não me quero eu afundar
Na escura gruta do desentendimento
Mas antes agir e agitar
Que a preguiça de só estar, esperar
É a causa do meu sofrimento

2006-11-02

Saudade




Quis desenhar, escrever sexta-feira
Que antes julguei cedo demais
E passei semana inteira
Perdido, soturno, sem eira nem beira
Tentando ocupar-me de coisas banais

Travou-me a vergonha e o mais que me impede
De rir ou sorrir é o tanto que tenho
Do pouco que exijo, o corpo me pede
A mente resiste e alma não cede
Vontade não falta, talvez o empenho

Fecho a porta, apago a luz
Mas nada me apaga a memória
Se nem o que escrevo, o que sinto seduz
Saber que em meu peito carrego esta cruz
É fardo pesado, para tão curta história

Ruga a ruga se tatua
Em minha pele tamanha saudade
De palavra despida, dita tão crua
De um beijo roubado na rua
Ou da certeza de uma amizade