2006-12-27

História




Relendo a história que Deus me ofertou
Páginas que viro sem conta dar
Sinto-me um sonho que alguém sonhou
Reflexo distorcido da imagem que sou
Folha a que o vento um rumo quis dar

Sou menos que um minuto contado
Na pressa da missa rezada
Assistida de corpo presente, ensonado
De olho aberto, o outro fechado
Perdido em memórias de pouco e de nada

Não tenho ideais e os demais pensamentos
São só a miséria de tão ignóbil viver
Ignorei a palavra e os ensinamentos
Deixei-me levar por demónios, tormentos
E entreguei cada dia a meu lento sofrer

2006-12-12

Vi o mar nos olhos de quem nunca o viu


Vi o mar nos olhos de quem nunca o viu
E estrelas no céu encoberto
Conheci o que um cego só sentiu
Senti o mesmo que a mãe que o pariu
O inferno tomei-o por certo

Vi cair tantas folhas no chão
E ao vento que as leva, o rumo perdi
Tive o mundo na palma da mão
Mas de noite cai do colchão
E não mais ao seu cimo volvi

Do alto da minha tão baixa janela
Da casa rasteira onde sempre vivi
Acendi em Teu nome, de noite uma vela
Que iluminou ponta a ponta a viela
Onde às ordens da Tua palavra cresci

2006-11-15

Verdade Inventada




Os tempos idos, levados
Na voz embargada, triste, forçada
Passos cruzados, lentos, marcados
Tudo conta quase nada
Mas eu insisto e vou na estrada

Perdi o tempo e a hora marcada
Mas lembro de leve o discurso
Tudo era pouco ou nada
Mas eu insisto e ando na estrada
Tentando marcar meu percurso

O brilho esbatido, ofuscado
Na jóia gasta, perdida, roubada
Largada ao destino do vento gelado
Vale agora pouco ou nada
Mas eu persisto e estou nesta estrada

O que a meus olhos era regra sem falta
Palavra com jura, lenda encantada
À mesa jogada a carta mais alta
De nada valia, verdade inventada
Mas nunca desisto... e sigo na estrada

2006-11-08

Vento que fala


Não quero eu ouvir as novas
Que o vento norte me trás
São modas tristes, são trovas
Disfarçam truques e provas
E testa-las a mim não me apraz

Não trouxe espada nem escudo
Fortuna não tenho um tostão
Solto o grito e o gesto mudo
Nada tenho e queria tudo
E tudo o que agarro é em vão

O mais que sinto é um nada
Ao lado da pressa incontida
Simples ardil da mente engilhada
Que à falta de rumo é à sorte atirada
E me embarca esta noite, sem volta só ida

Ezequivel é o plano
Que oprime a verdade e a cala
Começa a luta e cai o pano
Que vestia a desgraça e o engano
De traje fino de festa e de gala

Não quero eu ouvir as notas
Que o vento a miúde me toca
Hino que exalta as difíceis derrotas
Que entrelaça caminhos e rotas
E o meu horizonte desfoca

Não me quero eu afundar
Na escura gruta do desentendimento
Mas antes agir e agitar
Que a preguiça de só estar, esperar
É a causa do meu sofrimento

2006-11-02

Saudade




Quis desenhar, escrever sexta-feira
Que antes julguei cedo demais
E passei semana inteira
Perdido, soturno, sem eira nem beira
Tentando ocupar-me de coisas banais

Travou-me a vergonha e o mais que me impede
De rir ou sorrir é o tanto que tenho
Do pouco que exijo, o corpo me pede
A mente resiste e alma não cede
Vontade não falta, talvez o empenho

Fecho a porta, apago a luz
Mas nada me apaga a memória
Se nem o que escrevo, o que sinto seduz
Saber que em meu peito carrego esta cruz
É fardo pesado, para tão curta história

Ruga a ruga se tatua
Em minha pele tamanha saudade
De palavra despida, dita tão crua
De um beijo roubado na rua
Ou da certeza de uma amizade

2006-08-28

Quem es tu afinal?



Quem és tu e esse sorriso?
Que faz de mim submisso,
Não me deixa respirar...

Quem és e esse sorriso?
Que me leva ao paraíso
E me deixa perdido... a sonhar!

Quem és tu e esse sorriso?
Que me chega sem aviso
E foge de mim a voar

Quem és tu? E esse sorriso?
Se é sonho é o que preciso
E por isso não quero acordar!

2006-07-30





Minh'alma adormece em teus braços
Frios, mas quentes de amor,
Fortes, duros como aço,
Fracos cansados de dor

É revolta que sinto agora
É vontade de começar
Pego em ti que já é hora
De juntos podermos amar

Bebemos de um trago o passado
E ignoramos toda a razão
Braço dado, lado a lado
Abrimos portas à Ilusão

2006-07-07

Caçadas (Parte I)


Os anjos irados murmuram ao meu ouvido caçadas requintadas. No êxtase da noite deleito-me ao som do sussurro de suas vozes. Quem ousa duvidar dos anjos? Eu que os ouço não o faço, talvez por saber que dizem sempre a verdade, que mentira nunca vinga em suas histórias. Ensinou-mo a vida, ou talvez a minha avó... já não me lembro! Lembro sim de escutar atento, quase aterrorizado, os pormenores de suas caçadas, jornadas de sangue, de choro e de luto, de vidas esvaziadas em fracções de segundos, sem aviso, sem hora marcada. Os anjos não são brancos, melhor, não são só brancos. Nas penas de suas asas seca o vermelho sangue, fruto das vidas ceifadas a frio no calor de suas casas, em seus braços brilha a fuligem prata de correntes quebradas à força, a mesma força que os chama e os cora de vivo rosa, quais faces alvas e limpas, contadas na pressa da missa rezada, que a tantas vezes assisti. A malícia, aprendi a nunca associar a tais divindades. Fossem quais fossem seus actos, de obra divina são fruto, guiados pela não menos divina mão, fonte de divina justiça, que a todos toca cumprir. Ao comum mortal, de nada importa pensar, argumentar ou discutir, mas aceitar e seguir, que cumprir e dar graças, são imperativos indispensáveis à absolvição, que é por seu turno, elemento essencial e primário à admissão divina, claro está. Mesmo apelando ao meu mais refinado poder de síntese, será de todo impossível ignorar episódios relatados, ricos em pormenores requintados, apartes sórdidos e por isso absolutamente essenciais...Não quebro nenhum testemunho, nenhuma verdade instituída, gravada na sagrada obra, se disser que os anjos falam, não os ouvisse eu à noite, toda a noite... Às vezes culpo-me de os ter chamado tantas vezes, tantas, em tantas orações, em tantas frases feitas, batidas, usadas...
A ira que molda suas palavras, que envolve os seus relatos, não é aos olhos que quem com eles privou aceitável, mas a realidade que os envolve é bem diferente dos perfis meramente figurativas descritos pelos sagrados evangelistas, de não menos figurativas personalidades. O tom nervoso e incerto das suas vozes, choca de frente com a áurea calma e passiva que sempre se associa ao seu carácter. De gestos viciados, repetidos à medida da insegurança que os persegue e pauta a sua conturbada, confusa mas principalmente enigmática existência. Não é de todo fácil aceitar, a associação íntima do vocábulo - ira, à imagem instituída de um anjo. Desconexa e despropositada, chega a ser intolerável a sua existência, no léxico requintado que se pede a tão angelical personagem. A realidade é bem diversa. Um, contou-me uma noite em que saíram á caçada. Não, não fui quem se lembrou de utilizar tal termo, caçada é palavra corrente e recorrente do dia-a-dia, corrijo, do noite-a-noite de um anjo. Nestes casos, palavra e acto fundem-se, confundem-se e pouco importa o grau do termo implicado, quando a acção o transmite, literal e irrefutavelmente. Alguns seriam implicados pela primeira vez e nada sabiam sobre a penosa empreitada. Os passos arrastados e lentos, prenúncio do inevitável desfecho, quase não se ouviam, mas ecoavam na mente assustada dos mais novos. Em breve tudo não passará de um ritual, banal e diário, mas no entanto nunca diurno. Engana-se, como se enganavam os recém recrutados (entenda-se, nomeados, indicados, escolhidos, predestinados), quem pensa que a morte não escolhe hora, nem dia. A morte chega de noite e só de noite, ao som quase surdo, mas ensurdecedor aos ouvidos de quem a recebe e de quem pela primeira vez a retira. Diz-me quem a muito assistiu, que ninguém, bem, quase ninguém engana a morte, pois se o fizer vira anjo e não sobra por isso para o contar, a menos que como eu, se prive com eles...
Escutei-lhes conversas em tom obviamente viciado e por isso facilmente adjectivado como animado, regozijando com suas caçadas, enfatizando metodologias, transparecendo a sensação de dever cumprido...
" Trouxeste-a?"
"Custou-me... mas trouxe-a, claro!" - retorquiu.
Não o visse ele banhado em sangue, acabado de esventrar mais um peito, de ceifar mais uma, uma alma claro está, que é das tarefas quotidianas, a mais frequente entre os anjos.
“Deu-te luta foi? Cheio de vida o velhote…”
“Tinha o peito dela cheio…”
“Dela?”
“De vida, então… foi o cabo dos trabalhos até que lhe a alma arrancasse. E tu?”
“Sabes bem que tive menos trabalho, se bem que em quantidade…”
“Andas às pequenas…”
“Da lista nem uma se me escapou!”
Carregava almas tão jovens e por isso tão frágeis, inocentes, desprovidas por isso de combatividade ou predisposição consciente para lutar, para fintar quem a foice da morte lhes destina…
Aos olhos de quem em seu dia-a-dia comum tarefa desempenha, dificilmente encontra julgamento acertado para a conduta dos anjos. A cruel e sinuosa estrada onde caminham, dificilmente se esconde por detrás dos rostos tristemente habituados com que os vejo, as vozes trémulas com que os ouço, será por isso fácil perceber que quem os dotou de faces alvas e puras, serenas e contemplativas quando se prestou a esculpi-las e pinta-las, nunca de verdade os ouvi ou ouviu. Talvez fruto de uma imaginação herdada vezes sem conta, em diversas gerações de seus antepassados, testemunhas de pouco ou nada, mas ainda assim reconhecidos não raras vezes como sábios empíricos, sem no entanto critério palpável, quem se dedicou a retratar tais seres celestiais, achou por bem não divergir, divagar na ideia instituída de que estes meros pretensos contempladores passivos e expectantes das artes divinas, outras vezes relatados como carpideiros funerários de distintas individualidades e personalidades históricas, contribuindo assim para o delírio generalizado, fortificando a já de si solidificada, alicerçada ideia de ausência total de pecado em seres por todos jamais vistos, por mim até, que o contrário afirmo de forma peremptória… quem sabe?