2007-06-08

Hoje vou...


Imperturbável ou talvez nem por isso, deleito-me embalado pela imagem que com meus olhos nunca vi, a silhueta do teu corpo desprovido das vestes que na pressa do desejo te arranquei...
Quase entorpecido, quase embriagado pelo aroma emanado pelos teus movimentos, pelos teus gestos quase obscenos, seguramente sensuais, deixo-me levar pelo torpor quase imperial, imperativo dos mais irracionais instintos, que em mim insistem perpetuar, dominando-me...
Sigo ou paro? Vou ou fico?

Em análogas salomónicas decisões, julguei sempre melhor optar por suster a respiração, inevitavelmente ofegante, não raras vezes sufocando ímpetos tão inenarráveis como viciantes... mas hoje escolho arriscar, percorrer a pista da tua lágrima, perder-me no movimento sinuoso dos teus beijos, fundir-me no calor do teu corpo... hoje vou, embarco no comboio dos loucos rumo à terra dos sonhos, país dos intratáveis, incuráveis delirantes, donos de tudo e de nada... conto nunca mais voltar...

2007-05-04

Gente


Perguntei-me aonde pára
A gente que fala meu pai
Que olha de frente, que encara
A gente que passa e repara
No gato que brinca, na chuva que cai

Gente que viva é urgente
De quem não tem que seja a voz
Inquieta mas coerente
Gente que lembre da gente
Mesmo que não precise de nós

2007-05-02

Fazer de Conta


Nunca quis fazer de conta
contei contigo para ajudar
Quem se à realidade desconta
e seus quês não interroga e confronta
poucos passos tem para dar

É que uma vez desencontrado
ter que andar contas do rio a largar
difícil não é que as movam de lado
e na volta de avesso virem o fado
de quem certezas não tem para dar

Quem não assume seus males, seus medos
grandeza atribui ao chão que o há de colher
e vê-se-lhe a vida escorrer entre os dedos
pois nem o mais rebuscado dos enredos
se assemelha ao dilema que lhe cabe resolver

Se bem que sempre encontrei no problema
altura ideal para encontrar solução
Pois flui em meu corpo elaborado floema
que alimenta o meu ego e me inspira o poema
me resolve o enigma, me responde à questão

Não almejo mais que um abraço
Nunca quis menos que um só
E só na paz do teu regaço
Fui capaz de quebrar o firme laço
que me prendia ao passado com dolo e sem dó

2007-05-01

Como um rio


Na sua margem o mesmo aroma
vontade de andar, de correr
O rumo que sempre toma
o passo apressado não pode perder

Na nascente, a esperança de chegar
Na foz, um vazio, um fim, uma dor
ou a redobrada vontade de começar
nova vida, temperada de sal e sabor

O horizonte tão largo, tão incerto
confuso, revolto, desafiante
Outrora a terra ao lado, tão perto
hoje uma ténue lembrança, turva, hesitante

O que foi não volta, só fica a memória
e a certeza do passado, não passar disso
Agora a corrente é uma escolha, nova história
um livro aberto, à espera de ti, do teu feitiço

A saudade, essa é um luto
O bagaço da uva pisada, calcada
Mas é na força do olho enxuto
Que reunimos força para a diária caminhada

2007-04-27

Noite


Diluído o sol no alto mar
fundem-se as cores da jornada finda
em negro manto escuro altar
propicio tom ao penoso cantar
do vento sul, da chuva vinda

No discorrer da reza se contam
as contas frias de um rosário
De véu e vestido se aprontam
em lendas e crenças se montam
desarrumam a fé do armário

Dona, senhora se exalta
e é tão alta a berraria
que com susto nos assalta
pois medo é coisa que não falta
e quem o rejeita, o contraria

É assim, decidido e indiferente
que à faina se lança mais um
a volta sempre intermitente
e a colheita insuficiente
prorroga infinito jejum

Noite que é noite não geme
ao chegar de um outro dia
Gente que a vive não teme
encara-a, mão firme no leme
e de peito aberto, novo sol anuncia

Pouco Importa


Cai a noite e a folha no chão
e eu
Pouco importa
Na cama lavada, o colchão
suporta o peso da carne morta
vazia

Fecho um olho, o outro não
Esqueço tudo

Na alma não guardo
o que do corpo se solta
Nas voltas que a vida dá
de mim pouco se verá
A menos que dispenses escolta
E me dês por fim alvará
aí sim
Ergo o mundo à tua volta

Senão... fecho o outro
E esquecem-me todos
Pouco importa

O medo depois é que me chamem impossível
Dono de tudo e de nada
Ou apenas degrau de uma escada
Chapacho pisado á entrada
Que te importa?

Já eu não digo o mesmo...

2007-04-26

26.04.007







ao amigo Luís Pinto dos Santos,


À tua porta vou passar
tenho esperança de te ver
e uma história para contar
levo um abraço para te dar
e um poema para te ler

Trago comigo o respeito
por quem honrou palavra luta
e trago a força cravada no peito
que imita a que a teu jeito
se viu sempre de cara enxuta

Bem alto lugar te merece
de onde folheias atento o destino
de quem teu sofrimento conhece
e por tal nunca se esquece
que Coragem foi sempre o teu hino


Para ti a revolução foi a 26, o dia da tua liberdade... eterna!

Até já Luís, até já!

2007-04-03

A lei e o povo


No tempo em que o povo era lei
a lei era o povo
e o povo era rei
Um rei que era povo
de um reino sem lei

A regra escolhida, por todos pensada
por tantos usada,
por todos querida
era porta aberta e se atravessada
só tinha entrada, mas nunca saída

Fazia-se tanta, a pouca lentilha
com arte e uma pedra, matava-se a fome
E quem nem sabia o que era a cartilha
lia sem enganos no céu o seu nome
por ter sempre tratado a verdade por filha

Ora, nova lei vigora
com povo sem reino, sem rei nem roque
a reboque de tempos de outrora
mas que corre apressado, a passo de trote
sem olhar à gente, mas somente a hora

Mudaram os tempos, mas poucas vontades
quis o povo que fosse assim
Ainda se zangam comadres
mas já são poucas as verdades
que se ouvem a tempo de achar outro fim

2007-03-30

Mil Palavras


Em mil palavras Te vi
e em outras tantas Te aprendi
não me lembro sequer
se as inventei, se as li
por isso não mais repeti

A frase
em mil pedaços parti
E em mil letras, mil cartas revi
as vezes, que às vezes me vi
Debruçado em tanta palavra

“De uma delas faço mil!”
gritei
e o que faço de mim
ao pé de Ti não é nada
Do que escrevo pouco sei
e muito tempo que ao que escrevo dediquei
ao que sinto só serve de entrada...

2007-03-08

Publico-te


Publico-te
Escrevo-te em todo lado
e em folhas não vou poupar
nem a artigo te resumo
desenho-te em anéis de fumo
e tu, desenhas-te num lençol
ou numa valsa em ré bemol

Sistematicamente incorrecto
crio a lei, lanço decreto
Repetidamente demasiado exigente
volto a tentar descrever-te
e como é pra toda gente
publico-te
Faço de ti noticia
e tu, fazes de mim o leitor

Escrevo-te de noite
No escuro, claro está
basta-me a luz dos sentidos
e os teus pertences caídos
espalhados em meu chão
ou teu corpo ao alcance da mão

Nas tuas asas me elevas, me agarro
E entre um e outro cigarro
Uma pena te arranco ao descer
Para que te possa escrever
descrever
E... publico-te

2007-02-19

Ferida Aberta


Beijavas-me a testa
quando acordei de repente
Questionei “que vida esta?”
que tudo o que faço contesta
ao tanto que luto indiferente

Tentei mais de quantas vezes
sentar contigo, falar, perceber
mas percebi que minhas preces
não passam de esmolas, benesses
ao lado do orgulho que teimas manter

Teus ideais rejeito, discordo
de tantos nem lembro, os demais reprimi
Mas de noite confesso ainda acordo
e as palavras que mais me recordo
são as que de ti nunca ouvi

A letra troquei mas nunca o toque
retoco pintura da parede que ergui
Ergo a vela, queres vir a reboque?
Hasteio bandeira e se há quem se choque
não há quem não queira ao menos sonhar o que vi

Resignadamente inquieto me vejo
me afirmo tão firme, a tanto resisti
Sou planta rasteira mas nunca rastejo
e se perene minha alegria desejo
caducidade da tua, jamais a pedi

Desse tempo que passa se diz
Que tudo cura, assim seja feito
Lancei ao rio o sangue e o anis
outrora do peixe o chamariz
hoje apenas engodo ao teu respeito

2007-02-16

Eu e... eu!


Esperei por mim no fundo da avenida
No fundo, cheguei a achar que nem vinha
Quis até apostar, mas dinheiro não tinha
Lamentei o atraso e a hora perdida
Mas conheço-me bem, sei que a culpa é só minha

Ao chegar desculpei-me no mesmo instante
E embora o pensasse, não me quis criticar
Inventei uma história e deixei-me enganar
Mesmo desacreditado não quis ser distante
E sorri! - “Mais vale tarde, que nunca chegar!”

Logo enveredei pela conversa do costume
Irritei-me, estive mesmo para ir embora
Só não fui por ser eu, mas avisei que era hora
Já não há paciência para tanto queixume
De mim não levo nada! Para mudar que seja agora

Assim não dá! Não aguento mais
Jurei a mim mesmo a conduta alterar
E já agora a forma de estar e pensar
Que foram sempre atitudes iguais
As que me impediram de avançar

Alá-Riba, puxo por mim
É desta que avanço no mar
Puxo a corda que quero desancorar
Inquieto-me e busco por fim
Um caminho para navegar

2007-01-30

Espreita-me


Definho assistindo à atitude que ao mundo diriges
Pouco te interessa já o que penso
Para ti não vivo, sobrevivo... tudo corriges
Certo ou errado, que importa? Já nada defendo

Pago e não peço recibo ou talão
Empresto-me a quem me queira ouvir
Prometo não imitar o teu silencio... eu não!
Já passou! Agora só pesa o que está para vir

Guardas dúvidas? Tenho-as de sobra
Respostas tenho para quem as quer ver
Agastado, antes iluminado pela tua presença, pela tua obra
Fecha a porta, tudo bem, mas a cortina não queiras correr

Vê! Espreita... Espreita-me
Farei o que outrora contigo aprendi
Quando marcar o golo, aplaude-me
Sabes que o dedicarei sempre a ti!

2007-01-22

Escrevo, não escrevo


Não escrevo para sentir, pois não devo
Sinto para ter o que escrever
Leio o que digo mas só para aprender
A saber sentir aquilo que escrevo

Se muito penso pouco me entendo
Se não me percebo, penso demais
Quanto mais quero menos me lembro
E vou de Janeiro a Dezembro
Sem escrever duas frases iguais

Pouco me importa se escrevo a preceito
Mas se não escrevo tudo me interessa
Se faltam palavras, não penso na pressa
Não suporto nem quero escrever contrafeito

Se muito me peço a pouco me obrigo
Que pouco a pouco dá-me mais gozo
Não brinco com letras, mas elas comigo
Leio-me por dentro, mas sem olhar meu umbigo
Que olhar para mim mesmo deixa-me nervoso

Não quero ser muito, quero-me inteiro
Difícil de entender, fácil de definir
De alvo em movimento e tiro certeiro
A tempo do tempo que está para vir

2007-01-14

Vida... sem vida







Vejo-te aqui e ali cada dia
De olhar desatento, provocas quem passa
Finges não ver quem há muito te via
Na vida vazia, imunda, devassa

Do passo que usas conheço a razão
Para a dor que carregas solução desconheço
Nas costas a cruz e o terço na mão
Se a conduta reprovo, a culpa não te meço

Por todos falada, por poucos querida
Quem te o corpo conhece te quer esquecer
Diz o mundo e a gente que andas na vida
E eu só te vejo no mundo morrer

2007-01-02

Chuva que caí


A chuva que caí já não lava
De mim tão pesada vergonha
Que em minha pele cada dia se encrava
E do bolo me sai sempre a fava
Não fosse esta vida injustiça tamanha

No meio da rua ou no fim desta estrada
Caminho sozinho, sem fado nem norte
Perdi o tempo e fio à meada
Bolso vazio ou cheio de nada
Lanço a carta mais baixa e dados à sorte

Quem não rega suas flores
Só colherá o pó da estrada
Mente quem diz não sentir suas dores
E mata quem morre de amores
Chora quem vê sua jura ceifada

Derramado o leite, não há quem o beba
E quem o deseje não falta no mundo
Falta-me força, não falta quem deva
Deve-me o tempo segundos que leva
Quem muito alto voa, espera-lhe o fundo