
2006-07-30
2006-07-07
Caçadas (Parte I)

Os anjos irados murmuram ao meu ouvido caçadas requintadas. No êxtase da noite deleito-me ao som do sussurro de suas vozes. Quem ousa duvidar dos anjos? Eu que os ouço não o faço, talvez por saber que dizem sempre a verdade, que mentira nunca vinga em suas histórias. Ensinou-mo a vida, ou talvez a minha avó... já não me lembro! Lembro sim de escutar atento, quase aterrorizado, os pormenores de suas caçadas, jornadas de sangue, de choro e de luto, de vidas esvaziadas em fracções de segundos, sem aviso, sem hora marcada. Os anjos não são brancos, melhor, não são só brancos. Nas penas de suas asas seca o vermelho sangue, fruto das vidas ceifadas a frio no calor de suas casas, em seus braços brilha a fuligem prata de correntes quebradas à força, a mesma força que os chama e os cora de vivo rosa, quais faces alvas e limpas, contadas na pressa da missa rezada, que a tantas vezes assisti. A malícia, aprendi a nunca associar a tais divindades. Fossem quais fossem seus actos, de obra divina são fruto, guiados pela não menos divina mão, fonte de divina justiça, que a todos toca cumprir. Ao comum mortal, de nada importa pensar, argumentar ou discutir, mas aceitar e seguir, que cumprir e dar graças, são imperativos indispensáveis à absolvição, que é por seu turno, elemento essencial e primário à admissão divina, claro está. Mesmo apelando ao meu mais refinado poder de síntese, será de todo impossível ignorar episódios relatados, ricos em pormenores requintados, apartes sórdidos e por isso absolutamente essenciais...Não quebro nenhum testemunho, nenhuma verdade instituída, gravada na sagrada obra, se disser que os anjos falam, não os ouvisse eu à noite, toda a noite... Às vezes culpo-me de os ter chamado tantas vezes, tantas, em tantas orações, em tantas frases feitas, batidas, usadas...
A ira que molda suas palavras, que envolve os seus relatos, não é aos olhos que quem com eles privou aceitável, mas a realidade que os envolve é bem diferente dos perfis meramente figurativas descritos pelos sagrados evangelistas, de não menos figurativas personalidades. O tom nervoso e incerto das suas vozes, choca de frente com a áurea calma e passiva que sempre se associa ao seu carácter. De gestos viciados, repetidos à medida da insegurança que os persegue e pauta a sua conturbada, confusa mas principalmente enigmática existência. Não é de todo fácil aceitar, a associação íntima do vocábulo - ira, à imagem instituída de um anjo. Desconexa e despropositada, chega a ser intolerável a sua existência, no léxico requintado que se pede a tão angelical personagem. A realidade é bem diversa. Um, contou-me uma noite em que saíram á caçada. Não, não fui quem se lembrou de utilizar tal termo, caçada é palavra corrente e recorrente do dia-a-dia, corrijo, do noite-a-noite de um anjo. Nestes casos, palavra e acto fundem-se, confundem-se e pouco importa o grau do termo implicado, quando a acção o transmite, literal e irrefutavelmente. Alguns seriam implicados pela primeira vez e nada sabiam sobre a penosa empreitada. Os passos arrastados e lentos, prenúncio do inevitável desfecho, quase não se ouviam, mas ecoavam na mente assustada dos mais novos. Em breve tudo não passará de um ritual, banal e diário, mas no entanto nunca diurno. Engana-se, como se enganavam os recém recrutados (entenda-se, nomeados, indicados, escolhidos, predestinados), quem pensa que a morte não escolhe hora, nem dia. A morte chega de noite e só de noite, ao som quase surdo, mas ensurdecedor aos ouvidos de quem a recebe e de quem pela primeira vez a retira. Diz-me quem a muito assistiu, que ninguém, bem, quase ninguém engana a morte, pois se o fizer vira anjo e não sobra por isso para o contar, a menos que como eu, se prive com eles...
Escutei-lhes conversas em tom obviamente viciado e por isso facilmente adjectivado como animado, regozijando com suas caçadas, enfatizando metodologias, transparecendo a sensação de dever cumprido...
" Trouxeste-a?"
"Custou-me... mas trouxe-a, claro!" - retorquiu.
Não o visse ele banhado em sangue, acabado de esventrar mais um peito, de ceifar mais uma, uma alma claro está, que é das tarefas quotidianas, a mais frequente entre os anjos.
“Deu-te luta foi? Cheio de vida o velhote…”
“Tinha o peito dela cheio…”
“Dela?”
“De vida, então… foi o cabo dos trabalhos até que lhe a alma arrancasse. E tu?”
“Sabes bem que tive menos trabalho, se bem que em quantidade…”
“Andas às pequenas…”
“Da lista nem uma se me escapou!”
Carregava almas tão jovens e por isso tão frágeis, inocentes, desprovidas por isso de combatividade ou predisposição consciente para lutar, para fintar quem a foice da morte lhes destina…
Aos olhos de quem em seu dia-a-dia comum tarefa desempenha, dificilmente encontra julgamento acertado para a conduta dos anjos. A cruel e sinuosa estrada onde caminham, dificilmente se esconde por detrás dos rostos tristemente habituados com que os vejo, as vozes trémulas com que os ouço, será por isso fácil perceber que quem os dotou de faces alvas e puras, serenas e contemplativas quando se prestou a esculpi-las e pinta-las, nunca de verdade os ouvi ou ouviu. Talvez fruto de uma imaginação herdada vezes sem conta, em diversas gerações de seus antepassados, testemunhas de pouco ou nada, mas ainda assim reconhecidos não raras vezes como sábios empíricos, sem no entanto critério palpável, quem se dedicou a retratar tais seres celestiais, achou por bem não divergir, divagar na ideia instituída de que estes meros pretensos contempladores passivos e expectantes das artes divinas, outras vezes relatados como carpideiros funerários de distintas individualidades e personalidades históricas, contribuindo assim para o delírio generalizado, fortificando a já de si solidificada, alicerçada ideia de ausência total de pecado em seres por todos jamais vistos, por mim até, que o contrário afirmo de forma peremptória… quem sabe?
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