2007-05-04

Gente


Perguntei-me aonde pára
A gente que fala meu pai
Que olha de frente, que encara
A gente que passa e repara
No gato que brinca, na chuva que cai

Gente que viva é urgente
De quem não tem que seja a voz
Inquieta mas coerente
Gente que lembre da gente
Mesmo que não precise de nós

2007-05-02

Fazer de Conta


Nunca quis fazer de conta
contei contigo para ajudar
Quem se à realidade desconta
e seus quês não interroga e confronta
poucos passos tem para dar

É que uma vez desencontrado
ter que andar contas do rio a largar
difícil não é que as movam de lado
e na volta de avesso virem o fado
de quem certezas não tem para dar

Quem não assume seus males, seus medos
grandeza atribui ao chão que o há de colher
e vê-se-lhe a vida escorrer entre os dedos
pois nem o mais rebuscado dos enredos
se assemelha ao dilema que lhe cabe resolver

Se bem que sempre encontrei no problema
altura ideal para encontrar solução
Pois flui em meu corpo elaborado floema
que alimenta o meu ego e me inspira o poema
me resolve o enigma, me responde à questão

Não almejo mais que um abraço
Nunca quis menos que um só
E só na paz do teu regaço
Fui capaz de quebrar o firme laço
que me prendia ao passado com dolo e sem dó

2007-05-01

Como um rio


Na sua margem o mesmo aroma
vontade de andar, de correr
O rumo que sempre toma
o passo apressado não pode perder

Na nascente, a esperança de chegar
Na foz, um vazio, um fim, uma dor
ou a redobrada vontade de começar
nova vida, temperada de sal e sabor

O horizonte tão largo, tão incerto
confuso, revolto, desafiante
Outrora a terra ao lado, tão perto
hoje uma ténue lembrança, turva, hesitante

O que foi não volta, só fica a memória
e a certeza do passado, não passar disso
Agora a corrente é uma escolha, nova história
um livro aberto, à espera de ti, do teu feitiço

A saudade, essa é um luto
O bagaço da uva pisada, calcada
Mas é na força do olho enxuto
Que reunimos força para a diária caminhada